Síntese biográfica do meu percurso em África durante a Guerra Colonial o0o Mobilizado como Furriel do QP, de 1965 a 1967 integrado na CArt 785/BArt786 formado no RAP-2, para prestar serviço na RMA – Angola, no Sub-Sector do Quitexe , Sector de Carmona, destacado na Fazenda Liberato, Fazenda S. Isabel e novamente Fazenda Liberato de onde regressei á Metrópole o0o Mobilizado como 2º Sarg. de 1968 a 1970, em rendição individual para RMA- Angola e colocado no GAC/NL em Nova Lisboa , Huambo, mais tarde transferido por troca, para Dinge em Cabinda integrado na CArt 2396/BArt 2849, formado no RAL.5, regressei no final da comissão a Nova Lisboa de onde parti para Lisboa, a bordo do paquete Vera Cruz onde viajei também na primeira comissão o0o Mobilizado como 1º Sarg. de 1972 a 1974 integrado na Cart3514, formada no RAL.3, para prestar serviço na RMA- Angola , no Sub-Sector de Gago Coutinho (Lumbala Nguimbo) província do Moxico, onde cumprimos 28 meses, em missão de protecção aos trabalhos de construção da “Grande Via do Leste” num troço da estrada Luso – Gago Coutinho – Neriquinha – Luiana. Regressei em 1974, alguns meses depois de Abril 1974, tal como na viagem de ida, a bordo dum Boeing 707 dos TAM,.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Capª. III - Nova Lisboa - Saída para Cabinda

Depois de decorridos os trâmites para a minha troca com um camarada de uma Unidade de Reforço à Guarnição Normal(Unidade Expedicionária Metropolitana) que era propriamente designada como CArt 2396/BArt 2849-RAL-5, despedi-me de Nova Lisboa, cidade que tinha um clima fabuloso, muito semelhante ao clima mediterrânico, onde nunca passei um inverno tropical em que, diziam as pessoas que lá viviam em permanência, as águas chegavam a congelar superficialmente em tanques ou recipientes  que ficassem durante a noite ao ar livre e chegavam a ocorrer geadas nalgumas noites mais frias. Nunca cheguei a verificar tais fenómenos, mas eles existiam. Assim, num curto lapso de tempo, que não ultrapassou mais de um mês, chegou ao GACNL a nota do QG/RMA autorizando a troca, desencadeando a minha marcha para Luanda e dali para Cabinda. Para Luanda, o transporte utilizado foi um dos autocarros da EVA, um percurso com duração de oito horas.

2ºs.Sargentos Botelho e Costa, na Messe de Sargentos do Pangamongo
. De Luanda para Cabinda, foi utilizado como transporte uma LDG da Armada Portuguesa, um bom transporte para mercadorias ou materiais, mas para pessoal, era de uma pobreza franciscana, pois não tinha as condições mínimas para tal.  O que valeu é que foi numa época em que fazia bom tempo e ter sido feita a deslocação durante o dia, proporcionando-nos a oportunidade de fazer “Whale watching” gratuito, tendo as baleias acedido a proporcionar-nos um espectáculo de saltos e mergulhos durante a viagem que,  para mim e muitos outros, foi único e será irrepetível. À chegada a Cabinda, estava à minha espera uma coluna de duas viaturas, composta por um jeep e uma Berliet, pertencentes à Companhia a que estava destinado e seguimos para Lândana(antiga Vila Guilherme Capelo). Passámos em seguida pelo Dinge(sede do BArt  2849), onde se fez uma pequena paragem para apresentação e após esta, seguimos para Pangamongo, aquartelamento da CArt 2396, que ocupava instalações da CCC(Companhia de Celulose de Cabinda), com muito boas acomodações tanto para oficiais como para sargentos e praças. Nas proximidades, na margem direita  do rio Chiloango, no ponto em que entrava em território português, estava instalada a serração da CCC, onde a madeira era transformada em chaprões e transportada para o porto de Cabinda para ser exportada para os diversos destinos. O aquartelamento  ficava situado numa óptima posição defensiva, apenas tinha uma única via de acesso possível, ficando  sobre uma elevação,  excelentemente  protegido de acessos invasivos.

Frente:Cap.Novais, Luís Piçarra,Furriéis Neto,Figueiredo,(?), Antunes,Bogalho,Abrantes e 2º.Sarg.Botelho.Atrás: Furrieis Murta e Gonçalves,D.Manuela,Linda Mara e Ilusionista,Isabel,Tó Zé e Furrieis Runa e Pais da Costa
Após ter-me apresentado, foram indicar-me as minhas instalações, que eram as mesmas do sargento que ia substituir e que esteve comigo cerca de quatro a cinco dias a integrar-me na mecânica das funções de um primeiro sargento e a fazer-me a entrega dos serviços da sua responsabilidade. Foi para mim uma estreia, pois nunca tinha desempenhado aquelas funções. A CArt 2396, era uma Companhia Operacional, tinha um Destacamento no N’Cuto, a nível de Secção e dois GC destacados em zonas de alto risco em que, para se deslocarem numa distância de 10 Km, tinham que usar ou o detector de minas ou a “pica”, um espeto de metal,  para detectá-las. A picada era rasgada em plena floresta e tinha-se  que ter cuidado para não ser derrubado de cima das viaturas ao passar por lá. Era a floresta do Maiombe, comparável quase à da Amazónia. Os GC estavam aquartelados em locais como o Chimbete e o Sangamongo, qual deles o pior, tanto em acomodações como em condições de segurança.

Crachá do BART 2849
.Estou a lembrar-me de um oficial que foi ferido numa acção  de combate e que se chamava Santos, que ficou com uma boa quantidade de estilhaços no corpo  e foi, por isso, hospitalizado em Cabinda e da resposta algo dura que  deu ao comandante da Unidade, quando o foi visitar ao Hospital e o interrogou, quase como que a responsabilizá-lo pelo azar que tivera. Mas mudemos de assunto e passemos a outro tema: O da minha sobreposição com o 2º.Sargento que estava a responder e que eu viera substituir. Chamava-se(e chama-se, espero!...) Eduardo Costa e fora prisioneiro de guerra do Neru, em 1961, a quando da invasão do Estado Português da Índia. Como disse acima, esteve comigo cerca de quatro a cinco dias e findos estes, partiu para Nova Lisboa para o meu lugar, mas também para junto da esposa, que lá estava.  E, neste aspecto, ficou a ganhar mais do que eu com a troca que fizemos, embora eu também me sentisse suficientemente compensado no aspecto económico-financeiro, pois na situação em que ficava, estava bem melhor que em Nova Lisboa sob muitos aspectos. O Comandante de Companhia, em todas as áreas, uma excepcional pessoa, tinha consigo a sua esposa, que era professora e dava aulas, num posto escolar oficial que lá fora propositadamente instalado, às crianças filhas dos funcionários da CCC, e as suas duas filhas e um filho. Residiam numa casa, fora do Aquartelamento, que pertencia á Companhia madeireira. Era o seu nome António Novais, a sua esposa chamava-se Manuela e as filhas Isabel e Xana. O filho António José(Tó Zé). Consideravam-se como família de todos os militares e os aniversários deles  eram festejados com toda a Companhia e, francamente, das minhas três comissões a Angola, considero esta a melhor de todas, pois foi a que mais ambiente  familiar proporcionou aos militares. Em segundo lugar(e que me perdoem estes) ficou a terceira, a dos “Panteras Negras”. Relativamente à primeira, não teve comparação alguma com nenhuma das outras e apenas existiu entre os militares uma grande camaradagem e espírito de corpo. E, já agora, estou a notar que, contra o costume, este “post” está a ficar um bocado longo. Vou terminar enviando cordiais saudações a quem se der ao trabalho de me ler, mas em especial a todos os elementos das Companhias das minhas três Comissões em Angola e despeço-me até à próxima oportunidade, desejando a todos um próspero Ano de 2012, com   um abraço de amizade para todos. Até breve!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Capº.II - Nova Lisboa e algumas recordações

A guerra de Angola, em Nova Lisboa, no pouco tempo que lá permaneci, parecia um assunto de outro mundo muito distante, pois dela pouco ou quase nada se ouvia falar. É certo que as Unidades de Nova Lisboa, tais como o RINL (Antigo RI 21 e o GACNL, tinham Companhias de Caçadores e  Baterias de Campanha destacadas em lugares bastantes afastados das respectivas sedes, em locais como o Cuemba(Bié) e Luso (Moxico), ocupadas em missões que envolviam os riscos inerentes ás suas funções próprias e lá, de vez em quando, se ouvia falar de ocorrências de ataques do MPLA, dado que esses efectivos se encontravam numa zona tampão muito sensível, precisamente em locais que intermediavam entre a zona de acção dos dois ML (MPLA e UNITA). Existiam mais duas Unidades, que eram o Quartel-General da ZMC e a EAMA, mas estas   não eram operacionais, sendo a primeira um  QG e a segunda um Estabelecimento Escolar Militar, onde se ministravam em Angola os COM e CSM. Em complemento tinha outras pequenas Unidades, tais como um PAD, uma Delegação da Manutenção Militar e ainda um DRM e uma Casa de Reclusão.
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Uma rua em Nova Lisboa
As Unidades  ficavam situadas na periferia da cidade, já numa zona rural, nos arredores do Bairro de Stº.António e junto ao IIVA (Instituto de Investigação Veterinária de Angola) um estabelecimento de ensino e investigação na área da Agro-Pecuária, muito conceituado e único em todo o território angolano. A vida nas Unidades era idêntica à das Unidades Metropolitanas. Os militares que lá prestavam serviço, não tinham as mordomias dos que estavam em Luanda e no mato, pois não tinham direito nem a alimentação completa e alojamento e apenas recebiam o vencimento base e o complementar e não tinham a subvenção de campanha. Resultava disto que tínham apenas direito a almoço p/conta do Estado. Quanto ao resto era por sua conta. Tínham que pagar numa pensão, o quarto, o pequeno-almoço, o jantar e a lavadeira. Era uma situação tão apertada que, quando chegava o fim do mês, pagávamos as contas do Bar, da pensão, lavadeira e ficávamos “tesos” sem um “tusto” para qualquer outro imprevisto, tal como uma ida ao Cine Ruacaná, uma refeição fora, no Bar Martins, etc… Mas, por uma ajuda do destino, consegui um feito inédito, graças a uma troca que fiz com um camarada 2º.sagento como eu, que estava numa unidade de reforço à GN (Unidade Expedicionária, do RAL-5) que se encontrava em Cabinda, e que tinha a sua família estabelecida em Nova Lisboa; sucedera que tinha estado ali numa Comissão Voluntária e, quando esta terminou e regressou à Metrópole  foi logo apanhado para uma Comissão por Imposição, mas em Cabinda. Estava então ele em Cabinda e a mulher em Nova Lisboa, numa situação algo desconfortável. Ele, como tinha uma “cunha” no QG/RMA, conseguiu que fossse realizada a troca, fazendo ele o requerimento  e eu apresentando uma declaração como aceitante.Assim se fez e, rapidamente, foi o assunto resolvido!...Marchei para Cabinda, onde, embora isolado, fiquei numa situação económica mais  desafogada, pois tinha alimentação e alojamento e ainda recebia a subvenção de campanha .Isto permitiu-me aumentar a soma da minha pensão para casa e ainda ficar com um remanescente mais confortável de dinheiro para os meus gastos pessoais. Mas ainda antes de sair de Nova Lisboa para Cabinda, estou a recordar-me de um episódio trágico ocorrido nesse lapso de tempo com militares do GACNL. Conta-se em  poucas palavras:
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Jardim Público em Nova Lisboa
Estavam, numa determinada data que  não recordo, nomeados Sargentos de Dia ao Grupo e a uma das Batarias, um Furriel e um 1º.Cabo Milº., como então eram designados, por sinal, dois grandes amigos.  O Furriel e o Cabo Miliciano, acompanhados do Oficial de Dia, tinham acabado de passar a revista ao Quartel, após o Render da Parada e estavam os dois junto ao Posto Rádio das TRMS, na cavaqueira. Estavam armados os dois com a pistola Walther. De repente, sai-se o Fur.Milº. com esta, frase,  dirigindo-se ao Cabo Milº.: "Ó F…, eu vou-te matar, agora"!...E, acabando de dizer estas palavras, sacou da Valther e apontou-a  ao Cabo Milº, disparando um tiro, que atingiu em pleno peito o seu amigo, matando-o instantaneamente. O atirador ficou  como que “fulminado” transformado em estátua  durante uns segundos e ao consciencializar o que tinha acontecido na realidade, entrou num ataque de loucura, pelo que teve de ser dominado pelos circunstantes que o  transportaram ao Posto de Socorros, onde foi sedado. Quanto ao falecido, uma vez confirmado o óbito no próprio local da ocorrência, foi-lhe dado o conveniente destino. Por  hoje vou terminar, enviando cordiais saudações e aproveitando ao mesmo tempo a oportunidade para, nesta quadra festiva que se aproxima, formular os meus  votos  de um Feliz Natal, com muita felicidade, compreensão e saúde para os eventuais visitantes que se derem à paciência de me ler. Um abraço, com amizade, para todos e até breve!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

2ª.PARTE - CAPº. I - A minha segunda comissão a Angola

Como disse no término da 1ª.Parte destas Crónicas, embarquei em Luanda em 24JUL67, a bordo do paquete “Vera Cruz”, iniciando uma viagem que duraria nove dias e a partir dessa data estava logo incluído na escala para uma nova Comissão. Desembarquei em Lisboa no dia 3 de Agosto e, nesse mesmo dia apresentei-me no DGA, onde foi dada requisição de transporte e saída na Guia de Marcha para o RAP-2, Vila Nova de Gaia, hoje Regimento de Artilharia da Serra do Pilar. Ali fiquei a aguardar colocação e  definição da minha situação militar, que só ficou resolvida em l3 de Agosto. Fiquei colocado no RAP.2 e em Diligência na BAG-l, em Ponta Delgada, enquanto estive com licença de desmobilização, que era de 20 dias(10 dias por cada ano de Comissão). Só em 15 de Agosto de 1967 é que consegui chegar à minha casa e junto da minha família num dia tão memorável. À minha espera, tinha uma festiva recepção que os meus familiares me tinham preparado. Iniciei a minha licença e, finda esta, entrei ao serviço na minha Unidade de origem, a BAG Nº.1, prestando serviço na Secção de Mobilização. Continuava colocado no RAP-2, em diligência na BAG-l, situação que dava direito a um abono suplementar no vencimento, de cerca de 20$00 diários. Findos os vinte dias de licença fui colocado efectivamente na minha Unidade, a BAG-l.
Desfile no Juramento de Bandeira, no GAC/NL, em 1968
Para não estar a maçar desnecessariamente, vou já dizendo que, depois de uma permanência de cerca de pouco mais de um ano e, aí pelo último trimestre de 1968, estava novamente nomeado para outra Comissão, novamente em Angola, desta vez não incluído numa Unidade do tipo Batalhão, como da primeira vez, mas em rendição individual, o que queria dizer que tinha sido indigitado para substituição de um militar de igual graduação que tinha sido abatido por motivo de evacuação por doença, ou falecido em acidente de viação ou quem sabe, em combate. Era um dos pormenores que nunca nos diziam sobre a causa do abatimento do militar que íamos substituir, nem tão pouco o seu nome, porque se o publicassem, havia maneiras de se saber o que lhe acontecera!...Assim, mais uma vez, uma viagem até Lisboa, de barco, mas já no paquete”Funchal”,em vez do velho “Carvalho Araújo”, as inevitáveis despedidas que tanto custavam e, passados 3 dias já estava em Lisboa, apresentando-me, desta vez no DGA, a aguardar embarque para Luanda, novamente no "Vera Cruz".

Vista da cidade de Nova Lisboa(Huambo)
.Após os 9 dias de viagem, em vez de ir para o Grafanil, desta vez fui mandado apresentar no GACL, onde estive alguns dias  a aguardar colocação. Por fim, foi-me conferida Guia de Marcha para o GACNL, uma Unidade da Garnição normal de Angola. Fui colocado no PCS, prestando serviço na Bataria de Mobilização, serviço com que estava familiarizado na minha Unidade de origem. Passei a fazer Guarda de Polícia à Porta d’Armas, a auxiliar do Gerente da Cantina das Praças e a ajudar na Escola para Crianças Indígenas, na distribuição de Lanches. Não sei explicar a razão da existência dessas aulas no Quartel, ,mas elas existiam, de facto. Depois haviam as incorporações de recrutas, os Juramentos de Bandeira, tudo fazendo lembrar a rotina das Unidades Metropolitanas e  Insulares. Ali passei já o Natal de 1968 e, pouco depois, tive de ser internado no Hospital Central de Nova Lisboa, onde fui submetido a uma pequena cirurgia. Estavam já com idéias de me destacarem para uma das Batarias de Campanha destacada em Cuemba, Bié, que era um local que, naquela altura, não era para brincadeiras, pois ficava precisamente numa zona de grande atrito entre o MPLA e a UNITA e as NT, ficavam no meio dos dois Movimentos e carregavam pela medida grossa. Mas quem estava a pressionar para serem os sargentos novos os destacados, eram os veteranos da Unidade que eram sempre considerados mais antigos que os recém-chegados, por mais comissões que estes tivessem no lombo!...Eu, que já conhecia sobejamente o cenário da guerra, não estava a ficar muito contente com
Ceia de Natal de 1968, no GAC/NL
o andamento das coisas e não tinha, francamente, saudades nenhumas de me ver em tais andanças. A propósito disto, estou a lembrar-me de uma ocorrência única que verifiquei enquanto permaneci no GACNL. Encontrava-se lá um Fur.Milº. a quem sucedia um raro fenómeno!...Bastava-lhe pegar numa ração de combate para ele ter uma reacção alérgica que lhe punha toda a pele do corpo vermelha e ficava com a cara e as mãos completamente inchadas e tinha que ser tratado com anti-histamínicos!...Em todos os meus seis anos de serviço em África, este foi um caso único de "alergia" às rações de combate que,  de facto, verifiquei!...Por hoje, vou terminar,pois este "post" está a ficar um pouco longo. Cordiais saudações a quem se der à paciência de me ler e despeço-me até ao próximo Capítulo. Até lá!...
Octávio Botelho

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Adendas

ADENDA – I (Final da Comissão) Após ter encerrado o último post deste Blogue, por intermédio de um elemento da CCS/BArt 786, ex-fur.mil.º.Lapa, recebi as informações que seguem e que faltavam citar, por tê-las esquecido:
- Final da Comissão : - 28MAI67
- Fomos rendidos no Liberato, pela CCav 1707/BCav 1917, em 06JUN67
- A CArt 784, em Stª.Isabel  pela  CCav 1705/                            
- A CArt 783, em Zalala, pela CCav 1706                                   
- Embarque em Luanda em 24JUN67
- Desembarque em Lisboa em 03JUL67
ADENDA- II - Militares da CArt 785 condecorados:
Contrariando o meu propósito de, nestas Crónicas, não dar protagonismo nem a mim próprio nem a outrem achei por bem fazer uma excepção, colocando nesta Adenda uma relação dos Militares da CArt 785, condecorados pela sua actuação durante a sua prestação de serviço em Angola:
Com a Medalha de Cruz de Guerra de 3ª.Classe:
- Alf.Milº. Artª. - Henrique Pereira da Costa Tavares
- Fur.Milº.Artª.  - Valentino Manuel Francisco Xavier Viegas
-                    - Luís Carmona de Jesus
Com a Medalha de Cruz de Guerra de 4ª. Classe:
- Sold. Artª. - Cândido dos Santos Ferreira
-                - João dos Santos Antunes
-                - José da Silva Gonçalves
-                - José de Jesus dos Reis
Com a Medalha de Valor Militar de Cobre:
- 1º.Cabo Artª. – Carlos Manuel Soares de Andrade
Cordiais saudações para todos os elementos da CArt 785/BArt 786, do camarada  amigo,
Octávio Botelho

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

CAPº. - XXIV - Final da 1ª.Comissão em Angola

A história desta minha primeira comissão de serviço na ex-colónia de Angola chegou ao fim. Teve o seu fim, por volta de meados do ano de 1967. Mas falta ainda salientar o “stress”final dos últimos dias , com a preocupação de arrumar todos os nossos  parcos haveres, arrumar todos os nossos compromissos com o pessoal nativo, em especial a lavadeira, para que nada se lhe ficasse a dever, quer pelo seu consciencioso trabalho, quer pela sua dedicação que era exemplar, pois era extremamente limpa e apresentava-me as roupas sempre impecavelmente limpas e bem tratadas, apesar de ser uma mulher já com uma idade avançada e com um considerável rebanho de netos que, invariavelmente, a acompanhavam quando contactava comigo!...
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Partida do Liberato para Luanda
Contei-lhe, pelo menos,  uns cinco miúdos, com idades entre os dois e os sete anos. Como tinha poucas coisas que arrumar, tudo se resolveu rápido e, finalmente, chegou o tão esperado dia em que seríamos substituídos por uma CCaç, que fazia parte integrante de um BCaç, que iria ficar com sua sede em Quitexe e as CCaç distribuídas pelos mesmos locais em que se encontravam as nossas CArts.: Liberato, Santa Isabel e Zalala. Pois, como ia dizendo, chegou finalmente o dia em que desembocou no Terreiro da Liberato a Coluna Auto que trazia os nossos substitutos e que nos iria também transportar, dois dias depois para Luanda, iniciando-se, assim, o tão desejado regresso a casa e aos nossos familiares. Decorridos esses dois dias, lá estávamos nós no meio da maior excitação, a ocupar os lugares que ocuparíamos na nossa viagem até Luanda e Campo Militar do Grafanil.
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Partida do Liberato para Luanda
Com toda aquela confusão, nunca tive a oportunidade de, aos meus mais directos colaboradores e, agradecer a colaboração e apoio que em todas as situações me dispensaram. Estou a referir-me ao pessoal do meu GC em geral, desde o Comandante, ex-Alf.Tinoca, até ao ultimo militar do meu GC, abrangendo assim todos os meus Camaradas, furriéis do QC(Milicianos), o saudoso Luís J.P.Pinto(falecido em 24/04/66, num acidente de viação), o António C.Costa, que o substituiu e finalmente o Claudino F.S.A.Henriques. Quero deixar também aos elementos da minha Secção um agradecimento especial  por todas as atenções e apoio que me deram em muitas e diversas situações durante as missões que desempenhámos em conjunto. A composição da minha Sec. de Combate era a seguinte:
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Partida do Liberato para Luanda
1ª.Sec.Atiradores/3º.GC/CArt 785/BArt 786:
-Comandante : -Fur.Artª. Octávio Barbosa Botelho
-Esq.Metr.Lig.:-1º.Cabo 4522/64- Cândido Xavier Alves
                          Soldado 4518/ “ –João do Vale Matos
                            “          4525/ “ –Manuel de Oliveira Magalhães
 -Esq.de Atir: - 1º.Cabo  4532/ “ -Joaquim das NevesTeixeira
                         Soldado  4528/ “ -António Machado Araújo
                              “        4535/” - Joaquim da Silva Fernandes
                             “         4536/ “ -Albérico Pompílio da Cunha
                             “         4539/ “ -Eduardo Fernandes Guedes (a)
 -Cond.Auto         “         5230/ “ –Agostinho Francisco Vieira
(a) – Desempenhava o cargo de Padeiro da CArt 785
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Chegada ao Cacuaco em Luanda
E, assim, encerro a narrativa da minha primeira Comissão em Angola, que decorreu de 06JUN65  a  0? JUN67,  período este preenchido com muitas situações de perigo, aventuras e peripécias diversas, em que sempre esteve manifesta a lealdade e camaradagem que são o timbre dos militares portugueses em situações semelhantes. Aos meus antigos camaradas da CArt 785, em especial aos elementos do meu Grupo e Sec. Comb., desejo as maiores felicidades e reitero os meus agradecimentos por todas as atenções que tiveram para comigo e faço-o por considerar que excederam em muito os normais deveres impostos pela disciplina militar.  Para todos um abraço do Camarada e amigo,
Octávio Botelho

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

CAPº. - XXIII - Nova visita do azar

Decorria  mês de Março do ano de 1967. Encontrávamo-nos pela segunda vez  na Fazenda Liberato, a cerca de uns três ou quatro meses da data prevista para o fim da nossa missão na ex-colónia de Angola. Mantinha-se no entanto em alta a actividade Operacional que, tal como do antecedente se vinha a verificar. Além dos serviços operacionais, havia, naturalmente, os movimentos relacionados com os reabastecimentos logísticos, essenciais para se poder prover a todas as necessidades vitais de uma Companhia em plenas funções. Assim, naquele dia, 28MAR67, fora nomeada uma escolta para se fazerem os necessários reabastecimentos, tendo essa escolta sido organizada com o pessoal disponível no aquartelamento para o efeito. Cerca das 09H00 e depois da 1ª.Refeição, partiu a coluna do Liberato com destino a Quitexe, composta por duas viaturas:  um Unimog 411 e um camião Mercedes Benz e o efectivo de 1 Sec/Comb+(*). A cerca de meia viagem, perto da antiga e já abandonada sanzala do Cólua, numa zona com espessa vegetação marginando a picada numa extensão de cerca de cem a duzentos metros  acontece o inédito e o imprevisto: Sobre a primeira viatura da coluna auto e com origem na parte posterior da máscara de vegetação existente no bordo da picada, irrompe um cerrado tiroteio de armas ligeiras, tipo pistola-metralhadora, num número provável de dois atiradores, que veio atingir três militares:
Família de elefantes invadindo a estrada, em África

Um que seguia de pé, logo atrás da cabina, a que se apoiara, um outro, que seguia sentado  num banco corrido e, quase em simultâneo, o condutor da “Mercedes”. O primeiro atingido, teve morte instantânea; o segundo foi atingido no rosto com um projéctil que lhe atravessou de lado a lado a cavidade bucal e o condutor foi atingido num joelho que ficou bastante danificado e com sequelas posteriores permanentes. E não houve mais atingidos, devido à pronta reacção do pessoal da escolta, que pôs os agressores em debandada. O morto foi enterrado no cemitério do Quitexe tendo, mais tarde, sido trasladado para a terra da sua naturalidade. O ferido na cara, foi plenamente recuperado, pois no seu azar, teve a sorte de não ter sofrido danos de maior na estrutura óssea dos maxilares. Quanto ao condutor, esse não recuperou tão bem dos ferimentos, e eu próprio o encontrei, há uns anos e passados que tinham sido uns trinta e três  anos, ficou permanentemente marcado, pois ficou a coxear, uma vez que a sua recuperação não foi total!... Quanto ao militar falecido, vou aqui e agora revelar que se chamava António Teixeira Fernandes, do 1º.GC/CArt 785, natural de Braga, mais conhecido por “O Faia”, entre os seus camaradas. O Sold. Condutor, de nome José de Jesus Reis, hoje, Deficiente das Forças Armadas e quanto ao outro ferido, não consigo, por mais voltas que dê, relembrar o seu nome. Quanto ao António Teixeira Fernandes, deixo-lhe aqui as minhas homenagens, assim como a de todos os restantes camaradas elementos da CArt 785, garantindo-lhe que a sua memória perdurará enquanto existir o último dos seus camaradas. Um dia nos encontraremos de novo!...Até breve!...E eram estas as contingências a que se expunha um militar. Neste caso, estávamos no fim de uma missão se serviço, pedindo a Deus e a todos os Santos que nos afastassem dos contratempos e adversidades e acontecem, inopinadamente, ocorrências idênticas à que acabo de descrever e  que, na verdade, se revelaram como um autêntico balde de água gelada !...Ocorrências inesperadas, sim,  mas possíveis de acontecer, dadas as circunstâncias vigentes naquela época de incertezas. Vou terminar, por hoje, enviando cordiais saudações a todos quantos se derem à paciência de me ler. No próximo Capítulo, relatarei outras histórias. Até lá!...
N.R.(*)-Sec./Comb+ = Secção de Combate Reforçada.
Octávio Botelho

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

CAPº. - XXII - Outras histórias - Uma "mascote" especial

Como já por diversas vezes aqui referi, tivemos uma comissão intensamente ocupada em actividades operacionais, pois que parecia que toda a cadeia de comando estava fortemente empenhada em fazer uma rápida liquidação da missão que nos fora imposta. Ora tal desiderato era uma pretensão utópica e inalcançável, tanto quanto os factos futuros vieram comprovar. Mas a verdade era que tinham uma tão grande preocupação com o estado de saúde do pessoal, mas tinham umas reacções estranhas quando um médico diagnosticava um doente com “astenia” e “inapetência” e chegavam a perguntar: “Que é isto de“astenia”e “inapetência”?!  Até quase que acusavam os médicos de cumplicidade para o  “desenfianço” do pessoal ao trabalho operacional. Chegavam até a proibir jogos de futebol, para que não houvessem lesões traumáticas originadas nessas partidas desportivas que dessem cobertura a fugas à actividade operacional. Havia um que até dizia que não deviam beber refrigerantes gasosos, pois que eles só davam origem à produção de “gases”!.Cervejas, também, nem vê-las, pois embriagavam e viciavam quem as consumia. Vinho,  podia beber-se com moderação, mas apenas nas doses recomendadas pela “ração” diária, de dois decilitros por refeição e não mais que isso. Beber, só água, devidamente desinfectada, por causa das febres palúdicas !...Tudo tão sómente para não ficarem inoperacionais e poderem dar o máximo das suas possibilidades, sem descanço ou até caírem para o lado, de exaustão e “astenia”!...Valeu de muito, tanto empenho e sacrifício?!..
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Por do Sol sobre a floresta
A História seguiu o seu curso natural, tal qual um rio que foi represado e desviado do seu caminho e que, um dia, saltou das represas e fugiu ao caminho que lhe tinham imposto saindo, por fim, liberto dos limites que lhe tinham, artificialmente, traçado!... De qualquer maneira e, pelo menos, pela minha parte, apesar dos contratempos que me causou tal aventura no coração da África tropical, não dou por mal empregados os anos que lá passei e que não foram dois ou quatro,  mas seis, com mais alguns meses em cima!...No Capítulo anterior falei de algumas “mascotes” que eram os nossos cães. Neste episódio, estou a lembrar-me de um camarada nosso que,  não sei como, pois a memória me falha neste caso, arranjou uma “mascote” muito especial que era, nem mais nem menos que uma leitoa. Dentro do aquartelamento, seguia-o para onde quer que ele fosse, como se de um cachorrinho se tratasse. Tinha-lhe dado o nome de “Zeferina” e o facto é que o animal atendia quando o chamavam pelo nome . Tinha a sua cama, que era um caixote, onde dormia muito enrolada num pedaço velho de cobertor, encontrado no trapo de limpar o armamento. Só não me recordo do fim que lhe foi dado quando chegou a hora do regresso a casa, no fim da missão. Não sei se acabou transformada em “leitão à Bairrada”ou se foi deixada a algum dos camaradas que nos vieram render ao Liberato em 1967. Do camarada em questão não cito o nome, uma vez que resolvi não mencionar o nome de seja quem  for ligado a qualquer história que relate relacionada com factos ocorridos  com pessoas que, comigo, prestaram serviço na CArt 785. E, já que estamos em maré de histórias, estou a recordar-me de uma ocorrência passada com uma das nossas Praças. E, em poucas palavras, contarei a história tal qual como ela aconteceu: Foi um certo soldado nomeado para serviço de sentinela nocturna num posto que ficava perto da cozinha do Rancho Geral, que tinha dia e noite o fogo aceso em  permanência. O jantar devia ter sido fraco para ele e, durante a noite e fora da sua hora de posto, fez uma incursão a uma capoeira dos nativos contratados da fazenda, tendo capturado um galináceo escanzelado, só com penas e ossos. Quando a ronda passou pelos postos, notou que o soldado em questão estava acocorado junto à lareira, ocupado a fazer um “churrasco” com a sua presa e, imagine-se!...Ele tinha esquartejado o animal, sem o depenar, e estava a assá-lo nas brasas!...É claro que não cheirava a frango assado, mas a penas chamuscadas, que é um pivete bem desagradável.
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Elefantes na savana africana
E já tinha comido metade do frango cozinhado com aquela maestria, o que levava a crer que devia estar esfomeado para conseguir tragar tal petisco, culinariamente, tão pouco atractivo e até repelente. Enfim!...Contingências da guerra!...Mas parece-me  que a necessidade de comida não deveria ser assim tão grande para cometer uma proeza que nem os cafreais fariam, pois estes sabiam e muito bem tratar e temperar devidamente os seus churrascos!...Por agora vou encerrar este “post”, enviando saudações cordiais a quem se dispuser a lê-lo. No próximo Capítulo contarei outras histórias. Até lá!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

CAPº. - XXI - "Quitexe", "Calambinga" e outras "mascotes" da CArt 785

Não!... Não se trata da localidade, nem do rio com o mesmo nome, situados, como já referi várias vezes, na província do Uíge, na República de Angola. Na verdade, trata-se dos nomes de um casal de cães, irmãos e que, pelos nossos militares, foram adquiridos no Quitexe, após desmamados da sua mãe, uma cadela “pastor alemão” civil, pertença de um residente local,  sendo o pai  um garboso cão de guerra, que prestava serviço numa “Secção de Cães de Guerra”, adida ao nosso Batalhão. Foram trazidos para o Liberato, logo após a nossa chegada e foram logo adoptados pela maioria dos militares, que os cumulavam de muito mimo e os tratavam principescamente. Assim foram criados sem dono, mas com muitos donos e assim, qualquer militar que os chamasse pelo  nome, corriam logo os  dois para a brincadeira ou para receberem um petisco qualquer.
"Quitexe"e "Calambinga"
.Criaram-se e desenvolveram-se e, quando fomos transferidos para Santa Isabel, levámo-los connosco. Eram os dois muito afeiçoados a qualquer militar, mas a dois em especial, que eram o cozinheiro e o faxina da messe de sargentos, que deixavam comida e carnes em cima das bancadas, mandando à  “Calambinga”que os guardasse e saíam fora para verem no que davam as modas. Verificaram que, logo que qualquer pessoa estranha tentasse entrar no local, ela a impedia de entrar rosnando furiosamente, afastando assim os intrusos das coisas confiadas à sua guarda. Até mesmo o Gerente da Fazenda que, pretendendo reduzir caminho para o 1º.andar da residência tentou atravessar pelo local, que era no rés-do-chão, ao tentar entrar na porta, ela saiu disparada de lá de dentro e, pondo-se em pé, colocou-lhe as patas anteriores sobre os ombros, derrubando-o para o chão, onde ficou deitado de costas com a cadela por cima a rosnar-lhe junto à cara. O homem ficou a detestá-la por causa disso!... Qualquer estranho que viesse, mesmo que fosse militar e ela o visse avançar, arrancava como um raio para o estranho, pondo-se em pé a rosnar em frente à cara  da pessoa.
A cadela Dachshund, "A Baixota"
.Tinha que se chamá-la para ela deixar em paz a pessoa em causa. Mas não passava disso, nunca tendo mordido nenhum estranho que lá entrasse. Estou a lembrar-me de uma ocorrência com ela e com uma nativa bailunda, mulher de um contratado da fazenda, que era a lavadeira do cozinheiro da messe. A mulher parece ter extraviado qualquer peça de vestuário do militar e ele esperou que ela voltasse do trabalho, para lhe perguntar o que sucedera com a  peça em falta.  A “Calambinga”, muito atenta a todos os passos do “dono” deitou-se sobre a bancada de cimento que rodeava o edifício e vendo que a nativa ao ser interrogada, começara a falar alto e a gesticular para o seu"dono",  dispara em direcção a ela e, abocanhando-lhe o panal que lhe servia de vestido e que era apertado sobre os seios, deu-lhe um valente puxão, arrancou-o e ficando encapuchada,  começou a ladrar e a sacudir furiosamente o pano, correndo às cegas pelo terreiro!...A nativa ao ver-se despida no meio da rua e vendo a fúria da cadela, agarrou-se ao soldado e gritou: “ Ai ué, minino!...Não deixa que  o cadela mi mata!...Eu vou buscá já o teu roupa e não quero mais lavá!...Tenho medo do cadela mau!” O soldado ria que se partia e dizia-lhe: “Não !...Continuas a lavar-me a minha  roupa!...A cadela não te mata que eu não deixo!...
O "Rhodesian Ridgeback", o "Leão"
 Só quero que me tragas a peça de roupa em falta!”… Em seguida ele deteve a cadela, tirou-lhe o pano da boca e deu-o à nativa que, imediatamente, se envolveu nele e foi para casa em grande velocidade. A cadela também não gostava de ver fosse quem fosse a discutir, pois começava a ladrar enquanto não parassem e se uma das pessoas a chamasse pelo nome em tom aflitivo, ela atirava-se à pessoa que achava que estava a ameaçar a pessoa que a chamasse!...Era uma folia constante!...Enquanto estivemos em Santa Isabel, a “Calambinga” engravidou e a seu tempo, presenteou-nos com uma ninhada de doze cachorros, mas a maioria eram muito fracos e morreram, só tendo escapado três ou quatro que se desenvolveram e criaram normalmente, sendo já graúdos quando regressámos de novo ao Liberato. Como a cadela nunca saíu para o exterior e não havendo cão daquela raça, a não ser o “Quitexe” e as crias terem sido todas “pastor alemão” puras, desconfiámos que  o pai dos cachorros foi o próprio “Quitexe”, o irmão da cadela . Deve ter sido por essa razão que a ninhada foi anormal e fraca, devido à consanguinidade dos pais!... Mas as mascotes não eram só estes!...Havia ainda um “leão da Rodésia”, chamado “Leão” e uma cadela “basset-hound”, a quem chamavam a “Baixota”, o que perfazia um total oito cães, sendo quatro adultos e as quatro crias que eram o entretenimento dos militares em geral!... Por agora vou terminar, pois este já está a ficar um bocado extenso. Cordiais saudações a quem se der à paciência de me ler e despeço-me até ao próximo Capítulo. Até lá!...
Octávio Botelho     

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

CAPº. - XX - Emboscada aos "aguadeiros" e "Um golpe de sorte ou mestria?"

Estávamos há pouco tempo de regresso ao Liberato, vindos de Santa Isabel, quando nos aconteceu uma ocorrência única e invulgar, pelo menos nas Subunidades em que fiz parte dos efectivos das mesmas. No aquartelamento do Liberato não havia água corrente em nenhuma das instalações existentes. Nem mesmo na residência do gerente da Fazenda havia tal comodidade. Tinham uma cisterna feita em cimento  que era reabastecida de água pelos militares que igualmente reabasteciam os depósitos da cozinha do rancho geral e dos diversos chuveiros para o pessoal existentes em diversos locais do aquartelamento, depósitos esses que eram construídos com diversos bidões unidos pelo fundo com curvas e tubos de canalização, tendo um ou vários crivos de chuveiro, onde tomávamos os nossos  duches. A água era bastante boa, originária do rio Calambinga um, entre outros, dos afluentes do rio Dange e que tinha a sua nascente a poucos quilómetros a sueste do Liberato. A água do rio era periódicamente analisada, e em todas as análises, era classificada como potável, na época seca, mas na época chuvosa era aconselhada a filtragem, para poder-se utilizar sem riscos para a saúde. Ficava o rio a pouca distância das instalações(cerca de quinhentos a setecentos metros). Era, diariamente, nomeada uma Secção, com um Unimog 404 com atrelado tanque para água que, com uma bomba manual, aspirava a água do rio e depois a vinha distribuir, primeiro pela Cozinha e depois pelos chuveiros deixando todos os depósitos atestados, inclusive o da Fazenda.
Pistola-Metralhadora  PPSH(Costureirinha)-Russa
. Era um trabalho feito às primeiras horas da manhã e sucedeu um dia o inesperado. O rio ficava numa planície, que estava plantada de cafeeiros, o que dificultava a visão a longa distância, uma vez que aquela planta é muito ramosa e de folhagem perene.  A cerca de uns quinze a vinte metros havia um maciço de bambus, bastante espesso com uma extensão de uns dez metros e um metro e meio de largura, disposto ao longo da margem do rio, afastado desta uns quatro a cinco metros. A viatura com os militares, aproximou-se da margem do rio para iniciar o enchimento do atrelado da água e quando o fazia, inicia-se um inesperado tiroteio a partir da cortina do maciço de bambus, o que provocou pronta e idêntica reacção dos nossos militares, que fez com que os atiradores lá emboscados se pusessem em fuga precipitada, desaparecendo rapidamente a coberto da espessura dos cafeeiros. Foi feita uma rápida batida nas proximidades, mas foi infrutífera dada a pouca visibilidade na área, provocada pela vegetação existente Foram procuradas posições de vigilância além do rio a uma distância de uns vinte metros para prevenir alguma tentativa de reaproximação dos atacantes, mas eles não apareceram  mais, nem naquele nem em qualquer outro dia, até sairmos definitivamente de lá, no término da comissão. E foi este o único ataque feito,  não directamente ao meu aquartelamento,  mas nas suas imediações, durante as minhas três missões de serviço em Angola.
Por do sol em Angola
Depois deste episódio, estou a lembrar-me de um outro, ocorrido com um camarada meu que tinha a mania de querer fazer de qualquer bicho que apanhasse, um animal de estimação. Estava ele, nas proximidades do já citado rio Calambinga, à procura de qualquer animal que alcançasse, pesquisando no meio da vegetação rasteira com essa intenção. Tinha um militar ou dois que iam fazendo uma espécie de batida para irem encaminhando os bichos que lá estivessem refugiados para o local onde ele se encontrava. Ele, por prudência, levava aperrada a sua espingarda G-3, quando, de súbito, vinda do lado que se encontravam os seus ajudantes, se ouve uma grande restolhada na vegetação rasteira e logo em seguida se vê erguer-se do chão, uma cobra de  cor castanha clara e que fica estática, silvando e alçada, voltada para o local em que se encontrava o meu camarada. Repentinamente, a cobra catapulta-se para o ar e atira-se na direcção dele, que instintivamente e sem fazer a necessária pontaria,  disparou para o ar na direcção do ofídio que veio cair a seus pés, revolvendo-se no chão, mas... com a cabeça cortada pelo projéctil disparado!.... Era um animal com cerca de dois metros!... Ele ficou pálido e tremia, dizendo que, se quisesse fazer tal façanha de certeza que não conseguiria, apesar de ter tido a classificação de “atirador especial” e ter ganho alguns campeonatos naquela especialidade. Na realidade, deve ter sido um acaso ou um golpe de sorte. Veio para o aquartelamento arrastando o seu troféu, que esfolou e com ajuda de um nativo esticou a pele sobre uma tábua, depois de devidamente tratada, para secar. Mas a verdade é que perdeu a mania de ir caçar animais selvagens para fazer deles animais de estimação. Mas antes, chegou a ter um esquilo, depois um noitibó, mas dizia que o seu  sonho era ter uma cobra, anseio que nunca conseguiu concretizar. Por agora, parece que vou ter que parar, pois já me excedi um pouco. Despeço-me enviando cordiais saudações a quem se der ao trabalho de me ler. No próximo capítulo cá estarei com outras histórias. Até lá!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

CAPº. - XIX - Más recordações - Boas recordações

Vivemos de recordações!... Algumas delas desagradáveis, mas estas tentamos afastá-las para o mais longe possível, para que o tempo se encarregue de dissolvê-las, até que se extingam definitivamente e não voltem a importunar-nos. Mas a verdade é que as más recordações, lá de vez em quando , quais ervas daninhas que, embora sendo exaustivamente combatidas, insistem em surgir,  a verdade é que todas as recordações boas ou más ficam-nos permanentemente gravadas e, lá de vez em quando ressurgem inevitávelmente. Neste momento, estou a recordar um infausto acontecimento ocorrido não com pessoal da nossa CArt,  mas sim de outra subunidade, mas não me estou a recordar qual seria: se da CCS, seus adidos ou de qualquer das outras CArts do Batalhão. Em determinada data que já não recordo ao certo, foi realizada na áerea da Serra Quimbinda uma operação que tinha elementos da CCS e de uma das CArts. Devem recordar-se da existência do Fortim da OPVDCA que ficava a poucos quilómetros do Quitexe, na estrada Aldeia Viçosa – Quitexe – Carmona. A operação em causa foi realizada nas proximidades desse Fortim e sucedera que durante uma caçada levada a efeito em dia anterior pelos Voluntários, estes atingiram a tiro uma paçaça, ferindo-a apenas, não tendo conseguido apanhá-la, pois ela fugira-lhes, o que era evidenciado pelos rastos de sangue do animal ferido. Ainda a procuraram exaustivamente, mas nada conseguiram, pois a pacaça se pusera “a milhas” e, como era próximo o fim do dia, desistiram de procurar o animal e recolheram ao Fortim.
Synceros caffer(Búfalo do Congo ou pacaça)
 Passados que eram dois ou três dias desta ocorrência, estava o AGR/C em questão a entrar na região, quando transitava por entre capim alto, próximo de um maciço de mata, o animal ferido e naturalmente febril devido ao seu estado, do local em que estava emboscado, vendo o movimento das cimeiras do capim, investiu sobre a coluna de militares que por ali transitavam e foi atingir um militar que foi catapultado para uma distância de cerca de dezasseis metros e quando a equipa de socorro chegou junto a ele, verificou que um dos braços dele se encontrava praticamente arrancado rente ao ombro e apenas ligado ao corpo por algumas peles e nervos. O pior era que o rapaz de, 21 a 22 anos de idade, era casado e pai de dois filhos, pois tinha casado bastante novo. Foi pedida evacuação imediata do ferido e, dentro de muito pouco tempo de espera, lá chegou um Allouette III que o transportou para o Hospital Militar de Luanda. Quanto à evolução do caso do ferido, na nossa Companhia, nunca mais soubemos nada sobre ela, mas de certo haverão algumas pessoas do nosso Batalhão que deverão ter sabido do que lhe sucedeu. Temos boas recordações que vale a pena relembrar. Esta chama-se Victória. Já passo a explicar: Quando o nosso Batalhão ocupou o subsector, uma das suas Companhias, a 784, foi colocada em Stª.Isabel, onde foi render uma CCAÇ qualquer que, numa das suas operações teve a missão de destruir um objectivo In que tinha  dado diversos problemas à população civil europeia e nativa, sem distinção. Foi montada uma operação cuja missão era destruir o acampamento e seus ocupantes para deixarem de dar problemas. Realizou-se a operação com um tal factor de surpresa e secretismo que tudo decorreu como planeado. Foi destruído o objectivo com tal eficiência que não escapou ninguém, apesar da feroz resistência do In., bem equipado e armado, este foi completamente derrotado não tendo ficado ninguém, tendo alguns perdido a vida nesse combate. Na fase seguinte, foi iniciada a destruição da sanzala pelo fogo. Nesta ocasião, vindo de uma das cubatas em vias de ser destruída, foi  nitidamente ouvido o choro de um recém-nascido que, na fuga, fora abandonado pela mãe. Entraram na palhota e encontraram um bebé com poucos dias de vida. Era uma menina e órfã de pai e de mãe!...O que fazer?!... Consultado o Cmdt da força, este decidiu que não se faria qualquer mal à inocente, que seria recolhida e depois, com mais calma, se resolveria o que fosse melhor para ela. Logo ali lhe deram-lhe um nome:Victória !...
Foto apenas simbólica
E Victória passou a chamar-se. Tratou-se de registar e legalizar a bebé o que foi realizado sem problemas. A menina era tratada, alimentada por alguns soldados, como se de uma filha deles se tratasse. Quando chegou a fim da comissão deles, tentaram levar consigo para a Metrópole a criança, mas as autoridades puseram-lhes tantas dificuldades que tiveram que desistir. Mas há sempre uma solução para todos os problemas e para este não houve fuga à regra: Então, uma nativa bailunda que era mulher de um dos contratados na Santa Isabel não tinha filhos nem podia tê-los por uma qualquer razão física e foi ela que propôs às autoridades um processo de adopção plena da pequena Victória, que assim pode ter legalmente os seus pais. Essa criança, quando chegámos a Stª.Isabel devia ter uns dois a três anos e estava tão habituada aos militares por atavismo da sua criação, que só ia para os pais adoptivos para dormir. Falava o português espantosamente bem e nós, que gostávamos de ouvir falar , provocávamo-la a falar e dizíamos-lhe que ela era muito bonita(e era mesmo!...), mas que era “preta”. E ela respondia “Ah!...Não!...Não sou nada preta!...Queres ver?” E mostrando-nos as palmas das mãozinhas rosadas, dizia-nos:”Estás a ver?!...Não sou nada preta!...Sou branca!...”. Saímos de Stª.Isabel e Victória ficou lá com os seus pais adoptivos e com a 784 novamente, como no princípio. Deve ter nascido em 64-65. Hoje se estiver viva, terá uns 46 a 47 anos de idade. O que será feito da pequena   Victória tão amimada pelos militares?...Desta vez, bati o “record” de texto e fugi um pouco ao tema habitual. Vou terminar enviando cordiais saudações a quem se der ao trabalho de me ler, despedindo-me até ao próximo Capítulo. Até lá!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

CAPº. - XVIII - Regresso ao Liberato

Chegou finalmente o dia do regresso à estação inicial da nossa chegada ao Subsector do Quitexe que foi a Fazenda Liberato. Como já referi antes,  foi mais um choque físico–psicológico esta mudança  de  instalações, mas que foi bastante atenuado, por uma filosofia  que  nos tornava bastante  preparados para tal acontecimento com  muita antecedência, prevendo já, embora envolto em muitas incertezas, o nosso regresso ao lar, pois era uma verdade incontestável que não se podiam ter muitas certezas nas circunstâncias em que nos encontrávamos. Continuou, como do antecedente, a intensa actividade operacional, no sistema já referido de Bases Tácticas, adoptado na vigência da mega operação “Determinação Permanente” e, a propósito disso estou a recordar-me de um episódio passado com o encarregado de reabastecimento do AGR/C da minha Companhia com quem tínhamos combinado o envio de uma garrafa de Brandy 1920, não com este nome, mas sob um nome de código que era o de “azeitonas”. O pedido foi feito pelo Op. de Rádio, através do PCA, uma avioneta Dornier que recebia  esses pedidos e, simultaneamente dirigia os operacionais em terra, encaminhando-os para os objectivos a destruir, indicando-lhes rumos de aproximação aos mesmos.

Picada de acesso ao Liberato, na Estação das chuvas
.Nessa avioneta seguia com o piloto o oficial de operações do Batalhão que recebia pelos auscultadores os pedidos dos combatentes e os transmitia ao sargento reabastecedor para providenciar o solicitado. Feita a comunicação dos pedidos, eram reunidos os reabastecimentos na pista do aeródromo do Quitexe, metidos na Dornier ou num helicóptero que os levava até à BT e os lançava para uma clareira preparada para o efeito e a essse carregamento, nesse dia, como de costume,  foi assistir o Oficial de Operações, para verificar que tudo fosse enviado  sem falta alguma. Ao ver o sargento encarregado do Reab perguntou-lhe se não se tinha esquecido das azeitonas e, por causa das dúvidas, queria vê-las. O sargento ficou um tanto ou quanto baralhado, pois não tinha azeitonas nenhumas, mas sim uma garrafa de 1920, que não podia nem queria mostrar ao oficial. Pôs-se a procurar e, de repente, sai-se com uma desculpa de que as tinha preparado mas se esquecera de trazê-las. O oficial disse-lhe então que ele fosse a uma loja do comércio local comprá-las, pois não podiam faltar no Reab. Ele foi e regressou rápido com umas duas latas de um quilo de azeitonas cada uma e, de seguida a avioneta partiu para o Reab. Acho conveniente explicar que o pedido de 1920 foi feito devido a estar-se na  “época de cacimbo  ou seca”, em que as noites eram muito frias, devido ao denso nevoeiro saturado de humidade e as barracas, que eram abertas nos topos, não davam a necessária protecção contra o frio intenso que se fazia sentir, principalmente durante a noite.
Perfis de girafas ao por do sol, em Angola
Arranjou-se assim um produtor de calor interior para empurrar  para longe o frio, mas não para nos etilizarmos, o que seria uma falta ética e regulamentar.Como dizia acima, continuaram as operações, com o mesmo sobe serra, palmilha serra e desce serra, com tal frequência que até na mata, civis nativos que estavam sob o controlo dos ML que, posteriormente, se apresentaram ao Exército e às autoridades, sabiam os nossos nomes e um desses apresentados, quando contratado como guia de operação dirigindo-se a um dos nossos graduados que era furriel miliciano, contou-lhe que em determinada data, na serra Pingano, tinha sido por ele molhado com uma valente urinadela quando se encontrava escondido a observar o avanço da operação que naquela data e local fora realizado por um AGR/C da CArt 785. Parece-me que por hoje já chega e vou terminar, enviando saudações a quem se der à paciência de ler este “post”.No próximo Capítulo continuarei com outras histórias.   Até lá!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

CAPº. - XVII - Saída de Santa Isabel

Assim como tudo que tem um princípio tem, fatalmente, que ter um fim, a nossa  permanência naquela Fazenda, ia-se aproximando inexoravelmente do seu fim, mas como despedida, que pouco tempo nos deixava para pensarmos nisso, continuámos a ter, como de hábito, bastante e variada ocupação operacional, pelas mais variadas e diversas localizações, qual delas a melhor!... Poderia dizer-se que entre “aquelas” e “estoutras”, viesse  o diabo e escolhesse. Era esta actividade intercalada com outras menos arriscadas, mas não isentas de qualquer risco que, poderia dizer-se sem exageros, estava em todas as missões que nos atribuíssem, fossem de que natureza fossem. Não se podia propriamente dizer que pessoa alguma integrada numa qualquer força em estacionamento em Angola, tivesse missões mais ou menos arriscadas, porque tal não correspondia à verdade, salvo algumas excepções que aqui e agora não interessa referir. A propósito de operação, estou a lembrar-me de uma que foi feita para os lados da serra da Cananga e, durante o seu desenrolar, um dos nossos GC foi levado pelo PCA,  a um “objectivo” onde foram encontrados numa palhota armazém diversos aparelhos domésticos, tais como mobílias, despertadores, relógios de parede, máquinas de costura, que tinham sido objecto de saque feito a fazendas de europeus que ficavam nas faldas da citada serra e tinham sido levadas para ali por elementos dos Movimentos de Libertação.
Troço da picada de acesso à Fazenda Liberato
Como era impossível restituir tais objectos aos seus donos, por se desconhecerem e até talvez terem sido chacinados em 1961, alguns foram destruídos, mas um dos militares ficou encantado com uma máquina de costura muito bem conservada que lá viu e pediu ao Comandante da força se lha deixava levar consigo, no que foi atendido. Pois teve que a carregar desde o alto da serra até à base, num percurso que não era nada fácil, pois a serra tinha uma encosta bastante inclinada, difícil de subir e mais ainda de descer, como era na presente circunstância. Nunca mais se ouviu falar em tal máquina, nem se sabe se o militar a vendeu antes de partir ou se, de facto, a levou para casa no fim da comissão!... Foi enquanto estávamos nesta Fazenda que, em 26ABR66, tivemos a primeira visita do azar que, à nossa convivência retirou,  num brutal acidente de viação, os nossos camaradas Fur.Milº. Luís Joaquim Pereira Pinto, natural de Torre de Moncorvo e o Sold. CAR Alfredo Rebelo de Amorim Malheiro, natural de Vila Nova de Cerveira. Esta ocorrência já aqui foi referida mas, achei por bem repeti-la, para que fique na memória de todos os elementos da CArt 785/BArt 786/RAP-2 e assim não suceda ser eclipsada pelo olvido e perdure enquanto for vivo um dos elementos da nossa Companhia. Há ainda um outro elemento que faleceu em combate, mas mais perto do fim da Comissão que será relembrado na altura apropriada.
Por do Sol em Angola
Pouco antes de Natal de 1966, saímos efectivamente de Santa Isabel e voltámos ao nosso aquartelamento inicial, a Fazenda Liberato, aonde nos acomodámos o melhor possível para a etapa final da nossa Comissão em Angola. Já era um território conhecido e a adaptação às mais fracas instalações foi superada com relativa facilidade e alguma filosofia à mistura, tendo sido esta última que mais nos facilitou e suavizou o trauma da transferência. A CArt 784 pouco ou quase nada fez no melhoramento das instalações pois a verdade era que eles ali estiveram apenas em trânsito e porque as instalações eram  privadas e tal melhoramento poderia ter partido do proprietário da Fazenda, pois que elas, na realidade, eram sua  propriedade  legítima e os melhoramentos seriam feitos em valorização e benefício próprio. Por hoje vou terminar, enviando cordiais saudações aos meus camaradas da CArt 785 e a todos os que se derem ao trabalho de me ler, estejam onde estiverem. No próximo capítulo continuarei a narração destas Crónicas. Até lá!...
Octávio Botelho

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

CAPº. - XVI - O "Tango dos Barbudos"

O título musical que encima este “post” pode parecer despropositado, mas apenas e tão só para aqueles que tiveram a felicidade de deixarem de ter de ir para as ex-colónias portuguesas em, como nas décadas  de 60 e 70 do século passado se dizia, missão de soberania, para a manutenção do Império e combate aos Movimentos de Libertação que, não propriamente por sua  iniciativa, mas claramente empurrados por outros Estados que tinham em vista interesses naquelas regiões que desejavam ver libertas do jugo português, para manobrarem à vontade, tornando-se assim eles os reais “donos e senhores” daquelas riquezas que sabiam existir e queriam explorar à sua vontade. Mas isto é uma divagação e, assim, acho melhor voltar ao assunto em agenda. O “Tango dos Barbudos” foi e é ainda hoje, para as pessoas da minha idade que ainda andam por cá, uma peça musical que foi um estrondoso êxito de um conjunto musical latino-americano, tendo a peça em questão um cariz tipicamente revolucionário, tipo “Sendero Luninoso”ou “FARC”, pois a respectiva introdução era iniciada com efeitos sonoros de rebentamentos de granadas e longas rajadas de metralhadoras.
Capa do disco de vinil "Tango dos Barbudos"
Na altura em que decorria esta minha comissão de serviço(1965-1967) esse “Tango” estava na “berra” em todos os bailaricos populares em romarias, arraiais e feiras de todo o País e até na própria guerra colonial, neste caso, com muito mais realismo. Tanto assim era que, em conversa sobre as actividades operacionais que se iriam realizar, era comum ouvirem-se em diálogos entre militares, expressões como estas:  - “Vai ser feita em tal data uma operação à serra “Tal””!... Em resposta ouvia-se alguém dizer:-“Tenham cuidado!...Vocês vão, com certeza ouvir o “Tango dos Barbudos”!... Foi o que aconteceu connosco quando lá estivemos a semana passada e digo-vos que fizeram uma resistência cerrada, pois aparentavam estar bem armados e municiados”!...  Se, por uma lado, é verdade que homem prevenido vale por dois, ouvir uma tal notícia era, também, um motivo de preocupação prévia que tinha efeitos bastante negativos no ânimo dos intervenientes na futura operação. Mas enfim!...lá  chegava  dia “D” e, com as tripas às voltas e a quererem saltar cá para fora, com que força não teriam elas de ser transformadas em coração, para  dar ânimo para avançar sempre em frente e até ao fim da missão?! Pelo que fica dito acima, fica em aberto uma questão: A intervenção fora conhecida com antecedência e os intervenientes foram avisados das possibilidades de reacções fortes por parte do IN e  assim ,onde estava o secretismo da intervenção que era planeada no “segredo dos deuses” da Secção de Operações e que eram única e exclusivamente do conhecimento do pessoal que nela trabalhava?... Mas a verdade inegável era esta: Não havia secretismo nenhum, pois bastava passar pela sede do Batalhão uma viatura com pessoal das Companhias que, quando chegassem  ao seu destino, eram logo sabidas todas as operações que se iriam realizar, assim como os locais das respectivas intervenções. Assim, as praças, primeiro que os Comandantes das respectivas Companhias tinham total conhecimento das operações planeadas pelo Comando do Batalhão.
Por-do-Sol africano
.Isto era um facto conhecido de toda a gente e, nunca, em tempo algum, houve qualquer atitude por parte de quem direito que obstasse  a que tal acontecesse e assim continuou até a fim da nossa  intervenção na ZIN(Zona de Intervenção Norte) de Angola. Afinal, o tão proclamado segredo  operacional  não passava de um vulgar “segredo de Polichinelo”!... Mas apesar de todas essas contínuas violações de tal segredo, não houveram as terríveis consequências apontadas nos cartazes de “Acção Psicológica” que recomendavam “segredo absoluto” sobre as actividades operacionais, proclamadas com populares sentenças do género “ Pela boca morre o peixe!...Quem te mandou badalar?!” Mas queiramos quer não e sem me considerar fatalista, acredito que só nos acontecerá aquilo que “tiver de nos acontecer”, pois nada acontece “por acaso”, muito embora  deva poder  também ser considerado o factor “sorte” ou “azar”. Pela minha parte, posso considerar-me um sortudo por ter atravessado incólume o meu total de seis anos e meio de odisseia em plena África tropical. Desta vez, creio que excedi o limite habitual e vou terminar, enviando cordiais saudações a quem se der à paciência de me  ler.  Divaguei um pouco para desanuviar o ambiente esperando que o tenha conseguido. No próximo Capítulo, continuarei com outras histórias. Até lá!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

CAPº. - XV - Relembrando algumas ocorrências marcantes

Continuámos com a nossa permanência em Santa Isabel que, comparativamente ao nosso anterior  paradeiro, podia ser considerado quase como que uma colónia de férias, quanto a acomodações. Já tanto não poderei afirmar quanto a actividade operacional que era, já do antecedente, bastante dura e realizada, no geral, em localizações de difícil acesso, nomeadamente nas serras da Cananga, Pingano, Quitoque, Uíge, Vamba e Quimbinda, nomes que para muitos de vós nada significam e de que nem tampouco terão a certeza de que existem. Mas a verdade é que existem mesmo e qualquer um dos que connosco as treparam, quase como se fossem alpinistas e calcorrearam os cimos e cumeadas daquelas serras, que  não tinham planaltos, mas sim ravinas bastante profundas e quase alcantiladas e que deixavam de rastos, ao fim de um dia de marcha, até o mais atlético dos combatentes.
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Canhangulos, armas artesanais  (com o cano feito de tubo de canalização) de carregar  pela boca, com pregos e metralha diversa, cujo impacte era capaz de deformar um capacete militar de aço. 
 Estou a recordar-me, neste preciso momento, de um  camarada  meu  que, durante as deslocações de sobe e desce daqueles acidentes orográficos, sofria de uma espécie de hérnias musculares nas pernas que ficavam impressionantemente deformadas, o que lhe provocava dores excruciantes que lhe dificultavam a progressão da  marcha. Tinha que se parar, chamar o socorrista para, por intermédio de massagens e a toma de um tónico e analgésico muscular, lhe prestar a necessária assistência e, após um prolongado descanso e lenta recuperação da tonicidade muscular, podíamos prosseguir a marcha interrompida.Também o sistema de operações mudou bastante nesta época, pois apareceu por estas alturas a modalidade das “Bases Tácticas”, que permitiam uma mais longa permanência na mata, desenvolvendo-se uma actividade baseada essencialmente em patrulhamentos que irradiavam das referidas “Bases”,que em resumo eram como que um acampamento aquartelamento, com algumas melhorias, pois que estavam equipadas com cozinhas para a elaboração de comidas quentes  e refeições compostas de sopa e prato, o que era uma excelente oportunidade de desenjoar da R/C, que se tornava insuportável se utilizada por longos períodos. Continuava a haver as R/C, mas para serem usadas apenas em patrulhamentos que podiam durar, no máximo um dia e meio, a dois dias, mas com a certeza de que teriam à sua espera, no regresso, uma refeição reconfortante como devia ser. Essas “Bases” estiveram instaladas nas serras que já referi acima e as operações que se faziam a partir delas,  fizeram parte de uma mega-operação denominada “Determinação Permanente- Q” a que se juntava uma inicial “C”, “P”, “Q”, “U”, ou “V”, que indicavam a localização em que fora efectuada, sendo evidente que as iniciais correspondiam às das serras em que foram realizadas.
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Granada RPG(Energa)- Era lançada com a Esp.Mauser 7,9mm m/37
.Evocando um outro episódio ocorrido numa dessas operações, estou a recordar-me de um outro camarada que, ao fim de ter escalado uma das serras, parece-me que a Cananga, ao fim do segundo dia e depois de ter escalado uma série sucessiva de duas ou três ravinas, devido a não ter conseguido reter alimentos no estômago pois todos, mal lá caíam, saltavam para o exterior, mantinha-se apenas a beber água, ficando num tal estado de fraqueza e  prostração, que lhe impossibilitava o deslocar-se. O oficial comandante do AGR/C, vendo o estado em que se encontrava, através da rádio, pediu um meio de evacuação para o doente, tendo recebido como resposta que o Heli estava para Luanda aonde tinha ido transportar o Cmdt do Sector, para uma reunião de comandos, propondo que procedessem à evacuação com uma patrulha de escolta, saída do próprio AGR/C. O oficial conferenciou com o doente e este disse que, para trás, não ia com uma patrulha, de modo algum, tanto mais que, nesse dia e logo de manhã, tivéramos uma emboscada valente, com o In armado de canhangulos, Mauser’s e Pist-Metr PPSH.e fizeram-nos um arraial de fogachada, tendo sido obrigado a bater em retirada com uma “bazoocada” e umas “Energas” à  mistura. Não houveram quaisquer consequências  para nós, mas o bom senso nos aconselhava a não voltar pelo mesmo percurso, nem para evacuar um doente, pois que tal representava um risco enorme para quem se metesse em tal aventura. E assim, o doente, conforme pode, mas “à rasca”, percorreu o resto do trajecto da missão, durante mais três dias de insuportável agonia e“calvário”. Nesta operação ocorreu um facto inédito: O In seguiu-nos à vista, até termos saído da mata!..E, por hoje, acho que já foi suficiente e espero não ter desiludido ninguém e, se assim foi, espero fazer melhor na próxima semana. Apresento cordiais saudações a quem se tiver dado ao trabalho de me ler e despeço-me até ao próximo Capítulo. Até lá!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

CAPº.- XIV - Continuação em Santa Isabel

Como já disse anteriormente, a ida para Santa Isabel da CArt. 785, foi o melhor que nos poderia ter acontecido. Como também já disse, melhorámos enormemente no aspecto de alojamento e, como não poderíamos ter tudo bom, sucedia que no aspecto estratégico e táctico, Santa Isabel deixava muito a desejar. A área sede da Fazenda estava situada numa ligeira depressão, com as plantações de cafeeiros cercando tudo em volta, praticamente em cima das instalações fabris e de moradia e, portanto com uma visibilidade muito reduzida para o caso de haver um ataque às citadas instalações, só se dando fé de tal invasão, se  acontecesse,  mesmo em cima do acontecimento. Estava, assim, completamente afastada a hipótese de qualquer detecção prévia que permitisse organizar a auto-defesa. Felizmente que nunca aconteceu, pelo menos enquanto lá estiveram as duas CArts, a 784, em primeiro lugar e depois a nossa CArt 785”Os Cágados”, nenhuma visita  do então chamado IN. A verdade era a que diz  um ditado muito antigo e, como sempre, muito sábio: “O medo vigia a vinha e não o vinhateiro”!...O que quero dizer com isto é que, só pelo simples facto de existirem tropas aquarteladas numa Fazenda, era um forte óbice a que se aventurassem a, com intenções malévolas, caírem em tal aventura em que lhes sairia o “tiro  pela culatra” e levariam para contar!...
                               Vista geral da Fazenda Santa Isabel
Estávamos, assim um tanto ou quanto descontraídos, mas não ao ponto de nos relaxarmos na necessária segurança nocturna que  era  rigorosamente mantida, como era do Regulamento e da praxe. O clima, nada diferia do de Liberato, uma vez que Santa Isabel ficava a Leste daquele, a uma distância em linha recta de cerca de catorze quilómetros e, visto isto, é perfeitamente comprovada a afirmação que faço. A vida operacional mantinha-se sempre em força e actividade e sobre isto pouco mais há a dizer, que seja diferente da habitual rotina. Agora deu-me  para recordar uma altura em que estávamos muito próximo da época natalícia, que como qualquer outra tradicional festividade nos deixava com grandes saudades dos familiares e do ambiente familiar, mas a verdade é que nesta eram mais acentuadas e sentidas. Tínhamos recebido do MNF as tradicionais lembranças de Natal e que constavam essencialmente de cigarros, isqueiros, e pacotes de livros(nunca me esquecem os “Livros RTP) editados nos anos 60, de que recebemos embalagens de doze livros cartonados, com títulos de autores portugueses, tais como Júlio Dinis, A.Herculano, A.Garrett, e outros. Na véspera de Natal, a CCS, que tinha preparado um Auto de Natal, muito simples, sob a direcção do capelão, Pe. Victor Filipe, enviou um grupo que veio presentear-nos com uma exibição do seu trabalho, baseado na narração evangélica do nascimento de Jesus que, pela sua simplicidade, veio amenizar  e dar mais um pouco de calor à vivência das Festas Natalícias e, sob a direcção de um dos nossos alferes, foi improvisado o canto de algumas canções natalícias tradicionais.
Por-do-Sol em África
Foi bom, pois conseguiu-se, pelo ,menos  naquela noite, afastar um pouco o ambiente guerreiro, transformando-se aqueles momentos em oásis de paz e harmonia fraterna, que deveriam ser o quotidiano e não a excepção de uma noite ou de um dia, como era no caso presente. Infelizmente a paz e amor foram naqueles tempos uma flor com uma vida muito efémera, pois que durava apenas uma noite ou um dia e, no dia seguinte, já estava morta e enterrada,  como se nunca tivesse existido. Mas, que se poderia fazer?!...Eram as circunstâncias que assim o determinavam e nada havia a fazer. Estou a achar que já me excedi um pouco no meu “post” e acho melhor, por agora, terminá-lo.  Tentei fugir um pouco à rotina da matéria e espero que não tenha feito pior que nos anteriores trabalhos. Se, por acaso vos decepcionei, peço-lhes que me desculpem e no próximo tentarei fazer melhor. Cordiais saudações a quem se der à paciência de me aturar e cá estarei em breve, com o próximo “post”, para continuar. Até lá!...
Octávio Botelho